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28 julCarne cultivada: do laboratório para a sua mesa


Segundo projeções da consultoria McKinsey (2021), a depender da aceitação dos consumidores e facilidade ao acesso às carnes cultivadas, este mercado pode chegar a US$ 25 bilhões até 2030. Trata-se de um mercado aquecido, que recebeu em 2020 US$ 360 milhões em investimentos, seis vezes mais que em 2019 (Good Food Institute). Mas o que está por trás do crescimento dessas carnes tão comentadas nos dias de hoje?

O que é preciso para que a carne cultivada se torne de fato acessível ao bolso dos consumidores e como ela evoluiu para chegar ao que temos atualmente?

Até pouco tempo atrás, o cultivo de carne a partir de células animais em um meio controlado poderia parecer cena de um filme futurista, entretanto já era objeto de estudo de cientistas acadêmicos que, pouco a pouco, aprimoraram o produto resultante para algo com sabor, textura, aroma, composição nutricional e aparência da carne convencional. Apesar dos enormes avanços tecnológicos nos últimos 10 anos, a indústria de carne cultivada ainda está longe de estar disponível comercialmente para os consumidores e ainda mais distante de abocanhar parte da indústria tradicional de carnes.

Vale lembrar que atualmente, Singapura é o único país a ter carne cultivada aprovada para consumo. Este marco ocorreu em dezembro de 2020, quando a agência regulatória do país concedeu à startup norte-americana Eat Just Inc. a aprovação para vender seu frango criado em laboratório.

Avanços da carne cultivada no Brasil e no mundo

Assim como em alguns países da Europa e Ásia e inclusive no Brasil, a produção e liberação para comercialização de carne cultivada avança a passos largos. Segundo levantamento feito pelo GFI, ao menos 70 empresas ao redor do mundo – entre startups e grandes empresas – se movimentam para produzir carnes cultivadas. Veja abaixo o status de alguns países:

  • Brasil: alguns pesquisadores têm se dedicado a esta inovação. É o caso da pesquisadora Dra. Bibiana Matte, fundadora da startup Ambi Realfood, primeira startup de carne cultivada brasileira. Além de startups, as gigantes do setor de carnes também estão de olho no movimento. Em julho de 2021, a BRF anunciou o investimento de US$ 2,5 milhões na startup israelense Aleph Farms visando a produção de carne cultivada a partir de células bovinas não geneticamente modificadas em 2024. Leia mais em https://bhbfood.com/noticias/brf-faz-aporte-para-produzir-carne-artificial. Já a JBS anunciou também em 2021 a aquisição da BioTech Foods, empresa espanhola especializada em proteína cultivada. Parte desta aquisição envolve a implantação do primeiro centro de P&D voltado para o estudo de biotecnologia de alimentos e proteína cultivada no Brasil, tendo como objetivo o desenvolvimento de novas técnicas que tragam ganho de escala e reduzam custos de produção.

 

  • Holanda: Considerada como país pioneiro em carne cultivada e sede de um rico ecossistema de startups e pesquisadores de agricultura celular, a Holanda hoje lidera a corrida da carne cultivada na Europa. O pesquisador e empresário Willem Frederik van Eelen foi pioneiro na criação e desenvolvimento de carne cultivada e é reconhecido como um dos padrinhos desta inovação. A partir de iniciativas de Van Eelen, a primeira pesquisa institucional em agricultura celular foi realizada pela agência governamental holandesa SenterNovem de 2005 a 2009, que resultou na criação do primeiro hambúrguer cultivado em 2013. Já em maço deste ano, a Câmara dos Deputados holandesa permitiu a degustação de carne cultivada sob condições controladas. Ainda este ano, o governo concedeu €60 milhões para apoiar a criação de um ecossistema nacional de agricultura celular, maior investimento já feito em agricultura celular por um governo nacional.

 

  • Reino Unido: em 2021 o governo do Reino Unido concedeu sua primeira doação a uma empresa de carne cultivada. A Pesquisa e Inovação do Reino Unido (UKRI), no âmbito do programa Transforming Food Production, concedeu uma doação de £1 milhão à empresa de Edimburgo Roslin Technologies para desenvolver sua tecnologia de carne cultivada. O Reino Unido conta com doze empresas que estão trabalhando em carne cultivada, gordura cultivada, desenvolvimento de linhas celulares ou sistemas de biorreatores.

 

  • Japão: com o objetivo de estudar a segurança do produto para decidir quais regulamentações serão necessárias, uma equipe de especialistas estabelecida pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar será criada nesse ano. Tal equipe ficará responsável pela avaliação de riscos e segurança, aspectos fundamentais para a industrialização da carne cultivada. Com base nisso, será desenvolvido um relatório que irá pautar o ministério sobre maneiras de garantir a segurança do consumo do produto.

 

  • Estados Unidos: o FDA e o USDA criaram uma estrutura regulatória complicada para a avaliação da tecnologia. A FDA supervisionará a coleta de células, bancos de células e crescimento e diferenciação de células. Já o USDA ficará responsável por supervisionar os estágios finais, incluindo a produção e rotulagem de produtos alimentícios à medida as réplicas de gado e aves sejam criadas. Em junho de 2022 foram revelados planos para a construção da maior fábrica de carne cultivada no mundo, nos EUA, o que levará a produção de carne cultivada a uma escala sem precedentes. A empresa por trás do projeto é a Good Meat, com sede na Califórnia.

Como a carne cultivada é feita?

A produção de carne cultivada começa com amostras de células de animais coletadas de um pequeno pedaço de tecido do animal obtido por meio de biópsia. O segundo passo é identificar os nutrientes – vitaminas, minerais e aminoácidos – para as células consumirem e então crescerem em volume e densidade. A partir daí, essas células entram em seu meio de nutrientes em um biorreator, que possui um processo pelo qual agita as células sob uma pressão específica para criar um ambiente que permite que as células cresçam com eficiência e segurança. As células crescem e se multiplicam, produzindo tecido muscular real, que os cientistas então moldam em estruturas chamadas de “scaffolds” comestíveis. Usando esses scaffolds eles podem transformar células cultivadas em formatos diversos como bife, nuggets de frango, hambúrgueres etc.

Quando a carne cultivada se tornará acessível?

Em menos de uma década, desde o desenvolvimento dos primeiros protótipos, as empresas conseguiram reduzir os custos de produção de carne cultivada em 99%. Ainda assim, muita coisa precisa acontecer para que a carne cultivada se torne uma grande indústria e acessível à população em geral. Segundo projeções da McKinsey, se os custos seguirem a mesma trajetória do sequenciamento do genoma humano, a carne cultivada pode alcançar uma paridade de custos com a carne convencional até 2030.

Alguns temas ainda precisam amadurecer para que a carne cultivada passe a fazer parte do nosso cotidiano, como a aceitação do consumidor, garantia de segurança em seu consumo, além de aspectos regulatórios para a sua liberação, que costumam levar tempo. Enquanto essas delícias não chegam até nós, separamos alguns cases de empresas que já estão badalando o setor!

  • Sustineri Piscis: foodtech brasileira de peixe cultivado. Atualmente consegue produzir cinco tipos de peixes cultivados: linguado, garoupa, tainha, cherne e robalo.
  • Blue nalu: empresa norte americana de frutos do mar cultivados em células. Tem como objetivo ser líder global no segmento.
  • Aleph Farms: empresa israelense co-fundada com a incubadora The Kitchen Hub do Strauss Group e com o Professor Shulamit Levenberg, da Faculdade de Engenharia Biomédica do Technion.
  • Turtle tree: Empresa de Singapura focada no desenvolvimento de leite a partir de células cultivadas.

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Referências:

McKinsey. 2021. Cultivated meat: Out of the lab, into the frying pan. Disponível em: https://www.mckinsey.com/industries/agriculture/our-insights/cultivated-meat-out-of-the-lab-into-the-frying-pan

Good Food Institute. 2021. Com apoio do GFI, Brasil acelera inovação e prepara tecnologia para produzir carne cultivada. Disponível em: https://gfi.org.br/2021/10/25/com-apoio-do-gfi-brasil-acelera-inovacao-e-prepara-tecnologia-para-produzir-carne-cultivada/

Vegan Business. 2022. Japão avança na regulamentação da carne cultivada. Disponível em: https://veganbusiness.com.br/japao-regulamentacao-da-carne-cultivada/

BHB Food. 2021. BRF faz aporte de US$2,5 mi na Aleph Farms para produzir carne artificial. Disponível em: https://bhbfood.com/noticias/brf-faz-aporte-para-produzir-carne-artificial

Revista Exame. 2021. JBS anuncia aquisição e investimento de US$ 100 mi em carne cultivada. Disponível em: https://exame.com/negocios/jbs-investe-us-100-mi-para-entrar-no-mercado-de-carne-de-laboratorio/


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