Nos dias 28 e 29 de Setembro aconteceu em São Paulo, o 5° Simpósio de Nutrição Comportamental, do nosso Instituto Nutrição Comportamental (NC), do qual eu, Marle Alvarenga, Samantha Macedo, Manoela Figueiredo e Fernanda Timerman somos sócias. Não por acaso, o tema desse ano foi “Gentileza gera gentiliza” e eu ainda estou em êxtase com tudo o que vivemos por lá, por ver cerca de 600 nutricionistas compartilhando uma nutrição diferente, mais humana e gentil.

A pauta da mudança de comportamento efetiva, com ciência e prática clínica, está de fato conquistando o coração e a mente dos nutricionistas. Há 5 anos, quando começamos a trazer esta discussão de forma pioneira no Brasil, tínhamos um sonho, e hoje sabemos que isso se tornou um legado!

No dia 29, apresentei com Samantha e Katia Juliana o “Design Thinking” como instrumento de inovação para a carreira dos nutricionistas que buscam incluir NC em sua abordagem. Com este modelo mental de empatia, colaboração e experimentação, levamos os nutricionistas ali presentes a experimentar ferramentas inéditas e colocar a mão na massa. Valeu a experiência!

Confira o que os palestrantes trouxeram nestes dois dias de Simpósio

Um dos momentos mais irreverentes foi a apresentação do psicólogo Altay Souza com “O que Aristóteles tem a dizer sobre a Nutrição Comportamental? Ele mostrou de forma bem humorada que a Nutrição está muito atrasada ao considerar apenas duas das quadro causas aristotélicas: a Material = nutrientes e Formal = vias bioquímicas. Esquecendo-se, das  Eficientes = comportamento, e finais = análise do indivíduo.

Com isso, apostamos que Artistóteles diria que a Nutrição Comportamental é a visão complementar que faltava para a atuação dos profissionais no futuro!

A necessidade de aplicação das estratégias de mudança de comportamento nas doenças crônicas foram evidenciadas pelas nutricionistas Lilian Cuppari, na doença renal crônica; Natália Jensen, no diabetes; e Rosana Raele, nas doenças cardiovasculares. Em todas as situações, a adesão do paciente se mostra em geral baixa e sua condição não é melhorada apenas pela orientação nutricional baseada unicamente na restrição de nutrientes e comidas específicas.

Como resposta, Dra. Lilian apresentou o “CARIM”, um ensaio clínico não controlado que busca o tratamento de pacientes renais crônicos considerando técnicas de mudança de comportamento. Natalia chamou atenção para a estigamatização do diabetes, e uso das palavras “portador” de diabetes ou “controle” do diabetes, termos que remetem a uma posição de doença, descontrole e incapacidade. Natalia apresentou referencias da aplicação das técnicas cognitivo-comportamentais, mindfulness (atenção plena) e comer intuitivo, que já são descritas como importantes ferramentas de atenção ao diabético e são foco da abordagem NC.

Rosana trouxe a importância da aplicação da Entrevista Motivacional e entendimento do modelo de estágio de mudanças.

Marle Alvarenga, sócia do Instituto NC nos provocou a pensar na perda de peso como um fator ineficiente para a saúde. Trouxe o fato de que a obesidade só foi considerada doença nos EUA devido o sistema do seguro saúde.

Com maestria e muitas evidências científicas recentes, ela mostrou que a perda de peso é por si ineficiente como redução do risco de doenças crônicas. Aliás, a busca pela perda de peso estimula a realização de dieta, prática já extensa e cientificamente descrita como ineficaz e que favorece problemas de saúde e mesmo aumento de peso corporal no médio e longo prazo. Se você ficou intrigado com o tema, e quer saber mais, confira o curso online sobre a ineficácia das dietas no site NC.

Você pode se surpreender com este dado bem interessante que foi apresentado: mesmo sem haver perda de peso, a diminuição do risco relativo de morte pode ser observada com a melhoria do estilo de vida, consumo adequado de frutas, verduras e legumes, consumo moderado de álcool, prática regular de atividade física e ausência de tabagismo. Por que então focamos na perda de peso e não nestes comportamentos? Com isso Marle concluiu que o objetivo deve ser evitar o “reganho de peso”, com a melhora do comportamento alimentar e afirmou que perda de peso não deve ser um objetivo central, mas sim uma consequência de mudanças de comportamento que envolve diversos fatores: ambientais, sociais, culturais e de políticas públicas, algo mais amplo do que o enfoque na “culpabilização” do peso corporal.

Se ficou interessando neste assunto, Marle citou um recente artigo publicado em setembro de 2018 no jornal Huffpost intitulado “Everything you Know about obesity is wrong” (Tudo o que você sabe sobre obesidade está errado) (https://highline.huffingtonpost.com/articles/en/everything-you-know-about-obesity-is-wrong/ ) Vale conferir!

Se nossa intenção era quebrar paradigmas, a palestra “Será que existe vício em comida?, nos ajudou a cumprir esta tarefa com o embasamento e destreza do psiquiatra Alexandre Azevedo. O vício em comida foi bioquimicamente derrubado, dando lugar ao vício do ato de comer, ligando a desordens do nosso comportamento. Com várias dados de estudos, Alexandre Azevedo mostrou que diferente de drogas, a comida por si só não é capaz de aumentar a liberação artificial de dopamina nas fendas sinápticas, relacionadas a recompensa e ao prazer. E acrescentou que há uma confusão nas definições entre adição/vício em comida e compulsão alimentar. E mesmo que alguns elementos trouxessem a sensação de recompensa, acrescentou: nosso corpo não distingue se a origem da molécula de glicose veio do pão ou do açúcar!

Fabiana Benatti discutiu o sensacionalismo das dietas na mídias de massa, o que atribui em parte à forma simplista que os estudos clínicos e epidemiológicos na área da nutrição são apresentados ao grande público. E como um dos exemplos, citou o recém badalado estudo da Lancet sobre dietas “low carb”. Por mais que o estudo tenha trazido que o consumo em cerca de 55% das calorias totais provenientes de carboidratos está associado ao menor risco para doenças cardiovasculares, o que foi divulgado foi justamente um fato isolado e equivocado de que dietas com muito baixo teor de carboidrato aumentava o risco das doenças cardiovasculares. Só esqueceram de colocar que tanto o baixo consumo quanto e excesso apresentou risco, e que a moderação é a chave. Pois o que vale é o sensacionalismo. No final do dia, com o que fica a sociedade? Com uma grande confusão. Por isso, pelo menos os profissionais de saúde , precisam ter mais responsabilidade neste interpretação dos resultados.

Para abrir o segundo dia do simpósio, o psiquiatra Dr. Táki Cordás, pioneiro no tratamento de transtornos alimentares no Brasil, com quem tive a oportunidade de aprender muito enquanto voluntária do AMBULIM do IPQUSP, emocionou a todos com o conceito histórico e filosófico da beleza. A beleza das artes sensibilizou o auditório com notas do prelúdio número 1 de Bach em violoncelo e da dança, representada pelo espetáculo de balé Quebra-Nozes, levando-nos a enxergar que a beleza está onde nos encontramos em harmonia, na vida construída e nas relações. Referenciando o mundo líquido pós-moderno cunhado pelo filósofo Zygmunt Bauman, em que há um  desinteresse no social frente ao interesse no “eu”, o que se reflete imediatamente na “objetificação” dos corpos e simplificação do ser humano em toda sua complexidade.

A fisioterapeuta Bianca Thurm também quebrou os mitos e modismos sobre o corpo mostrando que o corpo que temos é diferente daquele que podemos sentir e  perceber e também diferente do que pensamos e acreditamos em nossa própria aparência. E fez toda a plateia exercitar uma sensibilização corporal nos convidando a testar diferentes instrumentos para trabalhar a imagem corporal com pacientes.

Junto com a beleza, a felicidade também tomou conta do auditório lotado, o psiquiatra Dr. Daniel Martinez nos fez refletir, com pesquisas e estudos amplos e globais, que muito do que perseguimos ou buscamos no dia a dia para nos deixar feliz, do dinheiro ao trabalho ideal, do convívio com animais de estimação ao matrimônio, nada disso impacta tanto nossa felicidade como o desenvolvimento de relações sociais significativas, as conexões verdadeiras, o investimento afetivo nas amizades e na espiritualidade. Citou como exemplo o estudo, Daniel Kahneman, ganhador do Nobel de economia,  em que o dinheiro pode auxiliar a alcançar a felicidade, porém há um limite a partir do qual o dinheiro já não faz diferença alguma. Nos fez refletir sobre o conceito do tempo, e de como gastar o tempo de modo eficiente e principalmente com experiências, sobretudo com a participação de outras pessoas, isso gera “dividendos” emocionais que corroboram para uma vida feliz. E por fim, a felicidade está mais relacionada a eventos internos do indivíduo do que com eventos externos e que o pensamento otimista e a gratidão, de maneira geral, podem ser adjuvantes da felicidade. Com certeza um bom investimento para todos nós.

Para o contexto da nutrição em “Gentileza gera Gentileza”, Rebecca Scritchfield, autora do conceito Body Kidness (gentileza com o corpo), nos mostrou o quão necessário é cuidar, amar e nos conectar com nosso corpo de forma positiva, e como isso traz consequências fisiológicas positivas a partir das ativações do nervo vago. Nos trouxe o conceito de espirais positivos, ou seja, “tudo o que você faz por você de forma positiva e que o aproxima do autocuidado”. Além disso nos chamou a atenção para o pensamento de autocrítica, o que ela chama de “thought bully” (pensamento de bullying), aquela voz  interior que diz “você não é bom o suficiente”, e que pode levar à mentalidade de dieta. A mesma voz também pode levar à estigmatização por alguns profissionais de saúde.

Enfim, um final de semana intenso que nos tira das ciências biológicas e nos envolve no campo da reflexão a partir das ciências sociais e do comportamento humano. Veja abaixo o vídeo memória do evento:

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Por Cynthia Antonaccio

CEO Equilibrium